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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Verduras... Legumes... Quem quer comprar"?


Todos os dias, depois da escola, eu e meu irmão Jairo, almoçávamos, pegávamos a carrocinha abarrotada de verduras e legumes preparada por meu pai, para vender aos moradores da redondeza. Tarefa um tanto árdua para duas crianças, (eu, nove anos, e meu irmão, cinco); ele, Jairo, ia comigo para ajudar a empurrar o carrinho nas subidas. Lembro-me quando minha mãe - num desses dias, depois que eu e Jairo chegamos depois de mais uma tarde quente de trabalho, exaustos e suados - disse a meu pai: -"Dê uns trocados para eles, coitados. Venderam bem!" - ao que meu pai respondeu: -"Que nada, nem precisa, pois eles comem, bebem e dormem aqui. Já estão mais do que bem-pagos". Para nós, até que era divertido, às vezes, pois quando já tínhamos vendido bem, parávamos para brincar um pouco. Só tínhamos que tomar cuidado para a mercadoria não murchar, principalmente quando o sol estava muito quente. Mas, como nada é perfeito, alguns moleques gostavam de zuar conosco. Chamavam-nos de pobres, pretos, crente da b... quente, e às vezes, batiam em nós. Eu e meu irmãozinho, um dia, cansados disso, prometemos a nós mesmos, reagir a estes ataques; íamos fazer alguma coisa. Num dia, saímos determinados: se alguém nos atacasse, íamos nos defender, custasse o que custasse. Aí, aconteceu! Como de costume, chegamos da escola, almoçamos, pegamos a carrocinha já cheia até às beiradas, e saímos gritando pelo bairro, debaixo da fervura da tarde: "verduraaaaa!! legumeeeees!! Quem quer compraaaaar.......!! Às vezes, gritávamos até ficar afônicos. Depois de rodarmos algumas horas - neste dia, a venda estava fraca - apareceram dois molecões maiores que nós, nos xingando e vindo pra cima de mim para me bater. Acho que eles queriam acabar primeiro com o mais velho. Depois, ficava mais fácil. Lembrei-me, nesta hora, da promessa que eu e Jairo nos fizemos. Quando vi que o da frente se aproximava, fiz o contrário do que fazia sempre: saí de trás da carrocinha, olhei fixamente nos olhos do inimigo e desafiei-o: "Vem pra cima, covardes. Vocês gostam de bater em moleques menores que vocês, mas hoje vão ter o que merecem." Hoje soa engraçado, mas, tive a ideia de pegar os dois chinelos dos meus pés, ir para cima do da frente. Mas, não foram só os chinelos que entraram em sena. Usava os chinelos, as mãos, os braços, a cabeça e as pernas. Usava todo o corpo para defender a mim e a meu irmão, que àquela hora, vibrava, me incentivando: "Dá nele, Carlinhos! Acaba com ele!!". Não sei como foi, mas, primeiramente, foi o moleque detrás que saiu correndo, apavorado. Depois, foi o da frente, que depois de levar chineladas, socos, pernadas e cabeçadas, saiu correndo o mais rápido que podia com os olhos esbugalhados. Acho que ele pensava que eu estava doido! Bem, talvez eu estivesse no momento mais lúcido de minha vida - penso, hoje! Depois deste dia, acho que a notícia correu, pois nunca mais ninguém mexeu conosco. "Sujeite-se a Deus, resista ao inimigo, e ele fugirá de você". Tiago 4 - 7.

Meu irmão Jairo, todas as vezes que nos encontramos, me pergunta se eu ainda me lembro deste dia. "Claro que me lembro - respondo - e você, por acaso, me deixa esquecer?"



 
Jairo


                                                                                                                               








                                                                                                                                                                                                              

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